Professor da UEG elogia o projeto “Crianças Constantinenses Escrevendo Histórias”

Livro escrito por crianças constantinenses foi lançado no mês de abril

Confira o texto escrito por Ângelo Cavalcante, que é economista, doutor em Geografia Humana (USP) e professor da Universidade Estadual de Goiás, campus Itumbiara.

No texto, o professor Ângelo fala sobre a importância do projeto “Crianças Constantinenses Escrevendo Histórias”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Educação.

Leia abaixo o texto do professor:

Constantina: sementeira de futuros! 

Ângelo Cavalcante

Em tempos de armas fáceis, fascistas e demagógicas, a pequena e altiva cidade gaúcha de Constantina nos dá um baita bofetão com “luvas de pelica”.

Vejamos… É que certos gestores fazem “isso e aquilo” pensando justamente na eleição que se avizinha; outros, no entanto, mais ambiciosos, constroem futuros; se afiam na feitura de povos, de civilizações de qualidade humana superior; com delicadeza renovada e com gestos e movimentos tais que beiram o lirismo, a poesia.

O bom exemplo vem da cidade de Constantina, cidade distante cerca de 1.451 km da minha melancólica e depressiva Itumbiara (GO).

Pois bem, pela atrevida iniciativa da professora Verônica Boemo e de respectiva equipe da Secretaria Municipal de Educação e Cultura, sob a gestão da professora Silvana Gheller, fora lançado um curioso e provocativo compêndio de textos infantis e que deu forma para a obra “Crianças Constantinenses Escrevendo Histórias”, 1a. edição (2018).

Na primeira vista, desavisados irão enxergar apenas “um livro”; mas nunca “é só um livro”. Um livro, observem, jamais é só um arranjado de textos e argumentos; ali estão expressas sensibilidades, espíritos, intenções e sonhos pessoais e coletivos.

A  iniciativa, de fato, é educativa mas também e, sobretudo, social, política e futurista no melhor do que este termo possui e apresenta; reside no aspecto vivo de que o livro é um semeio espiritual; é um fomento de talentos, de luminâncias pessoais.

O caso de Constantina é emblemático! O que fora abordado nesses textos? Ora, um ‘tudo’ sistemático, delicado e muito coerente. Vejam, o primeiro trabalho irá tratar da questão do “Êxodo Rural”; com escrita fácil, acessível e lúdica, crianças do primeiro ao quinto ano da  ‘Escola Cristovão Colombo’ contaram da relação campo e cidade de Constantina, lascaram dados do IBGE, falaram de agricultura, de organização, acessibilidade e desemprego. Um líbelo suave e doce.

E o melhor… Sem mágoas, ranços ou angústias, ao contrário, com leveza, muita estética, charme e esperanças… Tão bom escrever “esperanças”. Nos faz um bem enorme…

No trabalho seguinte, a meninada da ‘Escola Medeiros e Albuquerque’ anuncia Constantina como ‘terra de igualdade’. E na essência que só esse tenro instante da vida é capaz de produzir anuncia: “Construir esta cidade; não foi tarefa fácil; precisaram todos unidos, trabalhar em comunidade…”. E seguem com palavras “perigosas” como “diversidade”, “prosperidade”, “cultura” e outros termos carbonários e malditos, sobretudo, para um dos mais desiguais países do mundo feito o Brasil.

E seguem textos lindos, doces e pontiagudos como que a exigir um futuro social, comum e coletivo. Não sei ao certo, mas penso que essa cidadela lá pelo Brasil meridional nos lança uma iniciativa eivada de utopias, sonhos, ambições sociais e que nos sinaliza para, quem sabe, formas novas de gestão e da própria relação das governanças com a população e mesmo com a sua juventude.

Fico a pensar nessas crianças daqui a trinta, quarenta anos quando forem homens e mulheres e em um destes acasos e que a vida adora nos aprontar, encontrarem essa “obra matter” em uma prateleira empoeirada de alguma biblioteca do sul do país ou mesmo no semi-árido nordestino. Quem sabe? Já vejo a emoção, a lágrima, o encontro consigo mesmo, com sua história, com o seu ser.

Bom… De outro modo, sem sensibilidade, arte e o necessário encontro de sonhos, dos melhores deles, jamais daremos forma para a sinergia social, politica e cultural e que a tessitura de um futuro possível vive a nos exigir.

Eis uma possibilidade concreta acontecendo sob nossos olhos. Em tempos de tanta desesperança talvez possamos, com alguma ‘vergonha na cara’, seguir o bom exemplo de Constantina.

Parabenizo, do fundo do meu ser, os magistrais educadores da brava e resistente Constantina. Espécie de “Aldeia dos Gauleses” em meio a turba insana e cretina de fascistas e que tomou conta do país.

Meu abraço, meu respeito!

Ângelo Cavalcante – Economista, professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Itumbiara.

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